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Já uso um sistema pronto: configurar, integrar ou construir o próprio

Pedro Cunha
Pedro Cunha
CTO da Epicora

Publicado em
atualizado em · 13 min de leitura

Em resumo

Quem já paga um sistema pronto e sente falta de alguma coisa tem três saídas, nesta ordem de custo: ligar o que o sistema já oferece, integrar em volta dele ou construir um módulo ao lado, e construir um sistema próprio. Numa auditoria que fizemos, três dos quatro pedidos de um cliente já existiam no sistema que ele pagava, desligados. O sistema próprio se paga quando o processo é o que o seu cliente compra de você, e mesmo assim ele pode conviver com o sistema pronto em vez de substituí-lo.

Por onde começar quando o sistema pronto não faz tudo#

Quem já paga um sistema pronto e sente falta de alguma coisa tem três saídas, que custam mais nesta ordem: ligar ou configurar o que o sistema já oferece, integrar em volta dele ou construir um módulo ao lado, e construir um sistema próprio. Vale testar as três nessa sequência, porque a maior parte das faltas se resolve nas duas primeiras.

A conversa costuma chegar assim: a empresa usa um SaaS ou um ERP de mercado, gosta dele na maior parte e tem uma lista de três ou quatro coisas que ele "não faz". Daí a pergunta vira se é hora de contratar um sistema sob medida, e ainda é cedo para ela.

Antes, cada item da lista passa por três perguntas, uma para cada saída. O sistema já faz isso e está desligado? O dado já está lá dentro e falta uma tela ou um fluxo em volta? Ou o que falta não tem lugar nenhum no sistema que existe? Cada item pode cair numa saída diferente, e é comum três se resolverem configurando e só um pedir software.

SituaçãoConfigurar o que existeIntegrar ou construir ao ladoConstruir o próprio
A função está no menu, mas desligada ou zeradaresolve, com horas de ajustenão precisaseria pagar de novo pelo que já se paga
A função existe num plano mais caro do mesmo fornecedorresolve, se a diferença de mensalidade coubersó se o plano for caro demais para o usoraramente compensa
O dado está no sistema e falta a leitura: meta, painel, relatório cruzadoàs vezes, pelo relatório do próprio sistemaresolve: ler o dado e montar a tela foratroca desnecessária
Falta um processo inteiro, que usa dado do sistema prontonão alcançaresolve: um módulo ao lado que lê do sistema que ficasó se o resto do sistema também não servir
O dado que a decisão precisa não tem campo no cadastronão alcançaresolve, se esse cadastro puder viver fora do sistema prontoresolve, quando esse dado está no centro da operação
O processo é o que o seu cliente compra de vocênão alcançaalcança só a bordaé aqui que o próprio se paga
O fornecedor não deixa o dado sairnão se aplicacom alcance limitado, por exportaçãoentra na conta, porque o limite dele vira limite seu

Como descobrir se o que falta já está no sistema, desligado#

A forma mais segura é entrar no sistema por dentro, logado, com quem opera do lado, e conferir cada item da lista contra o menu inteiro, os cadastros e as configurações. Numa auditoria que fizemos em agosto de 2026, três dos quatro pedidos de um cliente já existiam no sistema que ele pagava, desligados ou configurados em zero.

Isso é mais comum do que parece. Segundo o relatório de adoção de funcionalidades de 2019 da Pendo, empresa americana que mede o uso de software, 80% das funcionalidades do software médio são raramente ou nunca usadas, numa amostra de 615 contas de clientes dela.

O caso de agosto era um SaaS de gestão em uso havia cinco meses, que segundo o próprio cliente atendia muito bem. O pedido era um sistema próprio com quatro melhorias. Entramos com o acesso que o cliente cedeu e achamos três delas no sistema atual: uma estava ligada, com 1 dos 120 serviços publicado; outra existia com outro nome e estava em zero nos 120; a terceira era um módulo nunca ativado. Contamos esse caso, com o roteiro da auditoria, no artigo sobre quando o sistema legado precisa ser substituído.

A mesma sessão mostrou uma coisa que nenhum briefing mostra. Um dos pedidos era um programa de fidelidade com mensalidade para o consumidor final, e, quando ordenamos a base por quanto cada cliente tinha gastado, os primeiros da lista eram outras empresas, que compravam em volume. A pergunta passou a ser para quem o programa seria, e essa resposta é do dono do negócio.

Dá para fazer boa parte dessa conferência sozinho, antes de pedir orçamento a qualquer pessoa:

  1. Percorra o menu inteiro, item por item, e não só as telas do dia a dia.
  2. Abra as configurações de cada cadastro. Função que depende de um campo por item, como um prazo, um aviso ou uma publicação, costuma vir zerada.
  3. Procure módulos que pedem aceite de termo para ativar. Eles ficam parados até alguém aceitar.
  4. Pergunte ao fornecedor, por escrito, o que existe nos planos acima do seu.
  5. Olhe o cadastro por trás de cada pedido. Se a função depende de um dado que não tem campo nenhum para existir, ali está o que pede software. Foi o caso do quarto pedido de agosto: o filtro pedido dependia de um dado que o cadastro não tinha.

Quando integrar em volta do sistema que fica#

Integrar faz sentido quando o dado de que você precisa já está no sistema pronto e o que falta é a leitura, a tela ou o fluxo em volta dele. O sistema pronto continua sendo o dono do dado, e o que se constrói lê dele, sem que nada do que já funciona precise ser refeito.

A Fitness Academia, uma rede de cinco academias, já tinha todas as vendas na NextFit, o ERP de mercado que ela usa. O que faltava era a meta comercial, refeita à mão numa planilha com critério diferente em cada unidade. A plataforma que construímos lê a NextFit a cada cinco minutos e nunca aceita venda digitada à mão, então o número da meta passou a sair do mesmo lugar que a venda. A NextFit não perdeu nenhuma função, e a equipe continuou vendendo pelo sistema que já conhecia.

Na própria Epicora a lógica é a mesma. O Controlle segue como o nosso sistema financeiro, e o painel dos sócios lê dele lançamentos e saldos.

Duas coisas pesam antes de fechar o escopo: o que o fornecedor deixa sair, seja API, exportação ou nada, e com que frequência cada dado precisa estar atualizado. O que o sistema do outro lado decide por você está em integrar com o ERP que a operação já usa. E, se ao lado do sistema pronto sobrevive uma planilha que só reorganiza o dado dele, ela é o melhor mapa do que falta ler, como mostramos em planilha, ERP de mercado ou sistema sob medida.

Quando construir um módulo ao lado do sistema pronto#

Um módulo ao lado faz sentido quando falta um processo inteiro que o sistema pronto não cobre, mas que depende de dado que já vive nele. O sistema pronto continua fazendo o que faz bem, e o módulo novo nasce lendo dele.

A Ideal Veículos, uma rede de 11 lojas, controla o estoque no Altimus. O financiamento de cada venda, que envolve escolher entre dezenas de financeiras quem aprova aquele cliente naquele veículo, vivia em planilhas de Excel, e nenhum software de mercado dava conta do processo do jeito que a Ideal trabalha. A decisão foi construir só o que faltava.

A plataforma de financiamento é sob medida e tem cadastradas as regras de cada uma das 19 financeiras com que a rede trabalha. O estoque continua no Altimus, e mais de 3.000 veículos chegam sincronizados de lá. Quem monta um financiamento digita a placa ou o chassi, e o resto dos dados do veículo chega preenchido, sem ninguém copiar de um sistema para o outro. O detalhe está no case da Ideal.

O módulo ao lado depende do que o sistema pronto entrega. O Altimus não oferece API, e a integração foi feita sobre uma exportação do estoque, por isso ela ficou no estoque e não chegou à base de clientes, que também estava nos planos. E cada dado tem um dono só: o veículo é do sistema de estoque e chega por leitura, e o financiamento é da plataforma nova.

Quando o sistema próprio é a resposta, mesmo com centenas de opções prontas#

O sistema próprio se paga quando o processo é o que o seu cliente compra de você, ou quando o conhecimento que decide o serviço é da sua empresa e não cabe num produto feito para o mercado inteiro. Nesses casos, configurar e integrar não alcançam, porque o que falta é o centro da operação.

Uma consultora que quer vender o próprio método como produto nos disse, numa reunião de descoberta, que existem "300 mil plataformas de recrutamento e seleção, mas essas perguntas são no formato da minha metodologia". A pergunta óbvia, por que não usar uma das prontas, ela respondeu na mesma frase. O cliente dela compra o método, e uma plataforma pronta foi desenhada para servir qualquer consultoria. No produto que estamos modelando com ela, o centro é exatamente a parte que nenhuma das prontas tem.

Na Beckers, que faz a assistência técnica de ventiladores industriais para frigoríficos e cooperativas, o laudo vivia num documento em Word, e o preço de cada reparo estava na experiência de quem montava o orçamento. Construímos um catálogo de diagnóstico que a própria Beckers mantém, com os defeitos possíveis de cada parte do equipamento e o preço de cada nível de reparo, e um aplicativo em que o técnico preenche o laudo na bancada. Esse catálogo é o conhecimento da engenharia da casa, que nenhum sistema de mercado traria pronto. O sistema está no ar desde abril de 2025 e já emitiu 428 relatórios.

Os sinais de que a resposta é construir o próprio são três:

  • O processo é o motivo pelo qual o cliente escolhe a sua empresa, e um produto pronto segue o jeito médio do setor.
  • A regra que decide o serviço é conhecimento da casa e precisa ser mantida por quem entende do assunto.
  • O dado de que a operação depende não tem onde existir no sistema pronto, e ele está no centro do trabalho.

Mesmo assim, o sistema próprio pode deixar com o pronto o que é igual para todo mundo, como nota fiscal, folha e contabilidade.

Por que trocar o sistema pronto quase nunca é a primeira resposta#

Trocar obriga o sistema novo a refazer tudo o que o pronto já faz bem antes de entregar a primeira melhoria. E a operação que não configurou o sistema atual tende a deixar o novo desligado do mesmo jeito. Por isso, quase sempre, a primeira resposta é ligar o que existe e construir só o que falta.

Quando o cliente diz que o sistema atual atende muito bem, essa frase vira a régua do projeto. Numa auditoria que fizemos em agosto de 2026, o menu do sistema pronto tinha mais de trinta itens, e era contra todos eles que um sistema próprio seria comparado no primeiro dia de uso. Trocar significa migrar cadastros e histórico, treinar a equipe de novo e reconstruir funções que ninguém listou porque funcionam, e a melhoria que motivou a troca só chega depois de tudo isso.

O segundo motivo é menos óbvio. Aquele sistema estava em uso havia cinco meses com 119 dos 120 serviços fora da página pública de agendamento. Um sistema novo entregue à mesma operação chegaria desligado do mesmo jeito, e por isso, quando um projeto desses segue, a configuração e a adoção precisam entrar no escopo como entrega, com responsável e prazo.

A troca passa a fazer sentido quando o dado fica preso no fornecedor e o processo depende dele, quando ninguém consegue mudar o sistema para acompanhar a operação, ou quando a equipe já trabalha por fora dele, em planilha e mensagem.

E sistema próprio não quer dizer sistema do zero. Nos projetos em que a operação já tinha um sistema pronto, inclusive a nossa, ele ficou no lugar: a NextFit, o Altimus e o Controlle seguem onde estavam, e o que construímos lê deles.

Perguntas frequentes#

Vale a pena trocar um sistema pronto que atende bem por um sistema próprio?#

Quase nunca como primeira resposta. Se o sistema atende bem na maior parte e falta uma lista curta de coisas, cada item costuma se resolver configurando o que já existe ou construindo uma peça pequena ao lado. A troca entra na conversa quando o dado fica preso no fornecedor, quando o sistema não deixa a operação mudar ou quando a equipe já trabalha por fora dele.

Como sei se a função que falta já existe no sistema que eu uso?#

Percorrendo o sistema por dentro, com quem opera do lado: o menu inteiro, as configurações de cada cadastro, os módulos que pedem aceite de termo e o que existe nos planos acima do seu. Função que depende de um campo por item, como um prazo ou uma publicação, costuma estar lá e zerada. Se ela depende de um dado que não tem campo nenhum no cadastro, aí está o que pede software.

Um sistema próprio precisa substituir o sistema pronto?#

Não. Sistema próprio não quer dizer sistema do zero. Nos nossos projetos em que o cliente já tinha um sistema pronto, ele ficou no lugar: a NextFit continua com as vendas da rede de academias, o Altimus continua com o estoque da revenda, e o que construímos lê deles e cobre só o que faltava.

E se o fornecedor do sistema pronto não deixar o dado sair?#

Ainda dá para integrar, com menos alcance. Muitos sistemas sem API oferecem alguma exportação, como um arquivo ou um endereço que devolve a base inteira, e isso basta para dado que muda devagar, como um estoque. O que não vem pela exportação vira limite do que se constrói em volta. Se o processo inteiro depende de um dado que o fornecedor não libera, a troca passa a fazer sentido.

Por que ter um sistema próprio se existem tantas plataformas prontas?#

Porque a plataforma pronta é feita para servir qualquer empresa do setor, e às vezes o que o seu cliente compra é o jeito como a sua empresa faz. Uma consultora que quer vender o próprio método como produto nos disse que existem 300 mil plataformas de recrutamento e seleção, mas que as perguntas dela seguem o formato da metodologia dela. Quando o processo é o produto, o sistema próprio se paga.

Fontes#

Próximo passo#

Antes de pedir orçamento de um sistema novo, escreva a lista do que falta no sistema que você já paga e passe cada item pelas três perguntas: está desligado, falta só a leitura, ou não tem lugar no sistema? Se a resposta for integrar ou construir uma peça ao lado, é o trabalho que fazemos em integrações e APIs, como na plataforma de metas da Fitness Academia. Se o que falta é o centro da operação, é o de sistemas sob medida.

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Quem escreve
Pedro Cunha
CTO da Epicora

Pedro Cunha lidera a engenharia da Epicora, em Chapecó (SC). Escreve aqui sobre as decisões técnicas dos sistemas que a equipe coloca em produção — arquitetura, escopo, estimativa e IA aplicada.

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