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Planilha, ERP de mercado ou sistema sob medida: quase sempre a resposta é mais de um

Pedro Cunha
Pedro Cunha
CTO da Epicora

Publicado em
atualizado em · 13 min de leitura

Em resumo

Planilha, ERP de mercado e sistema sob medida não disputam o mesmo lugar: ocupam camadas diferentes da mesma operação, e quase toda empresa saudável usa os três ao mesmo tempo. O erro caro não é escolher errado entre eles, é trocar de camada sem precisar: numa rede de cinco academias, o ERP de mercado continuou sendo a fonte da venda e o sistema sob medida só passou a ler dele a cada cinco minutos. A planilha, por sua vez, deixa de servir por três motivos objetivos, e nenhum deles é tamanho.

Por que a pergunta "planilha, ERP de mercado ou sob medida" está mal feita#

A pergunta chega quase sempre na mesma forma: a empresa cresceu, a planilha está estourando, e alguém precisa decidir entre comprar um ERP de mercado ou mandar construir um sistema sob medida. Escrita assim, ela já embute um erro: trata as três opções como degraus de uma escada, em que subir um degrau significa abandonar o anterior.

Não é assim que a operação funciona. Planilha, ERP de mercado e sistema sob medida ocupam camadas diferentes, e quase toda empresa saudável que atendemos usa os três ao mesmo tempo. O ERP guarda o que é obrigatório e padronizado. O sistema sob medida cobre o processo que é a vantagem competitiva da casa, aquele que nenhum fornecedor vende pronto porque ele só existe ali. E a planilha continua sendo a melhor ferramenta do mundo para a conta de uma pessoa só, feita uma vez, que não vira processo.

A pergunta útil, então, não é "qual dos três". É "qual camada cada um ocupa aqui, e onde está o buraco". Quem responde essa versão da pergunta erra menos e gasta menos.

Até onde a planilha serve, e o dia em que ela vira risco#

A planilha serve enquanto três condições forem verdadeiras ao mesmo tempo: uma pessoa por vez edita o arquivo, um erro de digitação é percebido e corrigido no mesmo dia, e nenhum dado pessoal sensível trafega ali. Quando as três valem, construir software é desperdício, e a resposta honesta de um fornecedor é dizer isso.

O problema é que a planilha não avisa quando deixa de servir. Ela continua abrindo. O que muda é o custo escondido em volta dela.

Na Cleantec, referência em higienização industrial e segurança de alimentos, o controle de limpeza, consumo de produto químico e análises microbiológicas dentro das indústrias de alimentos vivia em Excel, com uma planilha para cada cliente, preenchida à mão. A planilha abria normalmente. O que ela não fazia era controlar o excedente de produto com precisão e conversar com o estoque dentro da indústria, então o desperdício era invisível e a reposição acontecia no escuro. Para uma operação que sustenta auditoria de segurança de alimentos de um exportador que vende para mais de setenta países, isso deixou de ser ineficiência e virou risco. Hoje o mesmo trabalho vive num painel só, em quatro unidades da GTFoods, com mais de 460 análises microbiológicas rastreadas por mês e o consumo acompanhado produto a produto, previsto contra realizado. O detalhe do processo está no case da Cleantec.

Existe uma linha que é mais dura que todas as outras, e ela não tem a ver com volume. É o dado pessoal sensível. No Sistema Cuidar, o instrumento de avaliação de risco psicossocial rodava em Google Forms, e as empresas avaliadas simplesmente não aceitavam: dado de saúde mental de trabalhador identificável, em formulário genérico e planilha compartilhada, não passa pelo jurídico de ninguém. A Lei nº 13.709/2018 trata dado de saúde como categoria especial, e planilha compartilhada não tem controle de acesso, não tem registro de quem viu o quê e não tem forma de provar anonimato. Quando o dado é desse tipo, a planilha não é uma etapa do crescimento, é uma exposição.

O que o ERP de mercado resolve melhor do que qualquer sistema sob medida#

Existe uma família de processos em que comprar pronto ganha de construir, e ela tem um traço comum: são processos definidos por fora da sua empresa.

Emissão fiscal, folha de pagamento, obrigação acessória e contabilidade mudam por decisão de governo, não por decisão sua. Quem constrói isso do zero assume uma manutenção que nunca termina e que não gera vantagem nenhuma, porque o resultado certo é idêntico ao do concorrente. Um ERP de mercado dilui esse custo entre milhares de empresas e mantém uma equipe dedicada a acompanhar norma. É uma troca boa, e recomendar o contrário seria vender hora.

O mesmo vale, com menos força, para processos completamente padronizados dentro de um setor. Se o seu jeito de fazer é igual ao do vizinho, existe produto pronto, e o produto pronto entra mais rápido.

O que o ERP de mercado não resolve é o que vem depois do dado estar lá dentro: a leitura que só a sua operação faz, a regra que é sua, a tela que a sua equipe precisa e que o fornecedor nunca vai priorizar porque ela serve a um cliente só.

O erro mais caro é trocar o ERP quando bastava ler dele#

De todas as decisões dessa família, a que custa mais caro é substituir um ERP de mercado que está funcionando porque falta uma tela. E é uma decisão comum, porque a frustração com o fornecedor é real e se confunde com problema de sistema.

A Fitness Academia tem cinco unidades entre Chapecó e Cunha Porã, e o dado de venda já vivia na NextFit, o ERP de mercado do setor. O que estava fora era a meta comercial: refeita à mão numa planilha paralela, com um critério diferente em cada unidade, o que tornava os números incomparáveis entre si. A consultora, que é quem mais precisa saber quanto falta para bater, não tinha tela nenhuma, e o gestor abria cinco arquivos para ter a visão da rede.

Nada disso exigia trocar o ERP. A NextFit continua sendo a fonte da venda, e o sistema que construímos lê dela a cada cinco minutos e transforma isso em uma leitura só: a da rede, a da unidade e a contribuição de cada consultora. O ERP ficou na camada dele, o sob medida entrou na camada de cima, e o resultado está no case da Fitness Academia.

A mesma lógica vale para sistema legado próprio, e nós medimos isso na nossa operação: dos nove sistemas que já existiam quando chegamos, substituímos dois e cinco seguem em manutenção. Sistema antigo, feio ou lento não é motivo para trocar, e o critério completo está no artigo sobre quando o sistema legado precisa ser substituído. Quando a decisão é integrar em vez de trocar, o que muda no projeto está em integrar com o ERP que a operação já usa.

O que só o sistema sob medida resolve#

Três situações não têm solução de prateleira, e reconhecê-las cedo economiza meses.

A primeira é o processo que é a sua vantagem. Se o jeito como a sua empresa faz aquilo é o motivo pelo qual o cliente escolhe você, não existe produto pronto para isso, porque um produto pronto é feito para a média do mercado e a sua vantagem é justamente o desvio da média.

A segunda é volume ou formato que a ferramenta genérica não aguenta. Na avaliação genômica de ovinos que construímos para a DNA Genética do Brasil, cada animal é genotipado num chip de 80 mil marcadores, e o laboratório devolve um arquivo de 4,3 GB com cerca de 59 milhões de linhas. A Microsoft documenta que uma planilha do Excel comporta pouco mais de um milhão de linhas, então esse arquivo estoura o limite dezenas de vezes. Não é caso de disciplina de uso: é impossível por construção. O que a plataforma faz com esse arquivo está no case do SheepGen.

A terceira é a regra que muda por evento externo e precisa ser mantida por quem opera, não por quem programa. Regra dessa natureza cadastrada como dado vira autonomia da sua equipe; a mesma regra escrita dentro de um produto de prateleira vira pedido de feature numa fila que não é sua.

O critério, em uma tabela#

A perguntaPlanilhaERP de mercadoSistema sob medida
Quem define como o processo funcionavocê, e muda quando quisera lei ou o fornecedorvocê, e vira software
Quantas pessoas trabalham ao mesmo tempouma por vezmuitas, com perfilmuitas, com perfil e regra sua
O processo é igual ao do concorrenteindiferentesim, e é bom que sejanão, e é isso que te diferencia
Tem dado pessoal sensívelnão pode tersim, com controlesim, com controle desenhado
O que acontece quando o volume dobraquebra ou fica lentosegue igualsegue igual, foi dimensionado
Prazo para estar no arhojesemanas de implantaçãosemanas a meses, por escopo
O que você perderastreabilidade e controle de acessoa regra que é só suao pronto de prateleira

Uma leitura rápida da tabela: nenhuma coluna ganha em tudo. É por isso que a resposta quase sempre combina duas delas.

Quanto custa cada degrau, em horas#

Preço depende de escopo, e faixa de preço solta na internet não ajuda ninguém a decidir. Faixa de esforço, sim, porque ela mostra a ordem de grandeza de cada degrau. Nas 18 estimativas de custo que temos registradas, o esforço se organiza assim:

DegrauFaixa observadaO que costuma caber nele
Um processo saindo da planilha74 a 122 horasum módulo, um perfil de usuário, uma integração simples
Um sistema de operação247 a 656 horasquatro a oito módulos, dois ou três perfis, integração com o que já existe
Uma plataformaa partir de 1.250 horasvários produtos ou vários perfis externos, regra própria mantida pelo cliente

Duas observações que valem mais que os números. A primeira é que o que move a estimativa para cima quase nunca é a tecnologia, é a quantidade de regra que precisa ser descoberta antes de virar software: processo que ninguém escreveu ainda custa mais que processo documentado. A segunda é que a faixa de baixo existe de verdade, e é por ela que costuma valer a pena começar.

Três sinais de que a planilha já custa mais do que parece#

Não é tamanho de empresa, nem número de linhas. São três sinais operacionais, e qualquer um deles basta.

O primeiro é a pergunta "qual é a versão boa". Quando duas pessoas editam cópias diferentes e ninguém sabe qual vale, o arquivo deixou de ser fonte de verdade e virou opinião.

O segundo é o mesmo número digitado duas vezes. Quando alguém copia de um sistema para uma planilha para produzir uma leitura, o trabalho não é a leitura, é a digitação, e ela erra sozinha.

O terceiro é a auditoria. Quando alguém de fora, um cliente, um auditor ou uma norma, pode pedir prova do que foi feito, planilha não prova: ela não registra quem alterou o quê, nem quando.

Perguntas frequentes#

Vale a pena trocar o ERP de mercado por um sistema sob medida?#

Na maioria das vezes não, e esse é o erro mais caro dessa decisão. Se o ERP já guarda o dado certo e a dor está no que ele não mostra, trocar o sistema inteiro é pagar de novo por tudo que já funciona para resolver a ponta que falta. Numa rede de cinco academias que atendemos, a venda já vivia no ERP de mercado e o que estava na planilha era a meta comercial, refeita à mão com critério diferente em cada unidade. O ERP ficou onde estava, e o sistema sob medida passou a ler dele a cada cinco minutos. A troca se justifica quando o próprio dado está preso, quando ninguém consegue mexer no sistema ou quando a operação já criou um caminho por fora para trabalhar.

Até quando dá para ficar na planilha?#

Enquanto três coisas forem verdade ao mesmo tempo: uma pessoa por vez edita o arquivo, o erro de digitação é percebido e corrigido no mesmo dia, e nenhum dado pessoal sensível trafega ali. Quando as três valem, a planilha resolve e não vale a pena construir nada. A conta vira quando duas pessoas passam a editar cópias diferentes, quando ninguém consegue dizer qual versão é a boa, ou quando o dado que está na planilha responde a auditoria, a norma ou a cliente.

Quanto custa um sistema sob medida?#

Nas 18 estimativas que temos registradas, o esforço se organiza em três degraus. Tirar um processo específico da planilha, com um perfil de usuário e uma integração simples, ficou entre 74 e 122 horas. Um sistema de operação, com quatro a oito módulos, dois ou três perfis e integração com o que já existe, ficou entre 247 e 656 horas. Uma plataforma com vários produtos ou vários perfis externos passa de 1.250 horas. O que mais move esse número não é a tecnologia, é a quantidade de regra que precisa ser descoberta antes de virar software.

Dá para começar pequeno e crescer depois?#

Dá, e costuma ser a melhor forma de começar. A condição é que o recorte seja um processo inteiro e não meio processo: se o usuário precisa terminar o trabalho na planilha depois de passar pelo sistema, o sistema não substituiu nada, apenas acrescentou uma etapa. Começar pequeno também dá uma informação que nenhuma reunião dá, que é ver a equipe usando de verdade antes de decidir o segundo módulo.

E se eu já tenho ERP e planilha ao mesmo tempo?#

Esse é o estado mais comum, e ele é um diagnóstico pronto. A planilha que sobrevive ao lado de um ERP mostra exatamente onde o ERP não chega, porque ninguém mantém trabalho manual por gosto. Vale listar cada planilha viva e responder, para cada uma, de onde vem o dado que a alimenta. Quando o dado já está no ERP e a planilha só reorganiza, o caminho é leitura e não substituição. Quando o dado nasce na planilha e não existe em lugar nenhum, ali está o processo que pede sistema próprio.

Fontes#

Próximo passo#

Se a sua operação hoje é ERP mais planilha, a lista das planilhas vivas é o melhor ponto de partida que existe, e ela leva menos de uma hora para ser feita. Para cada planilha, uma pergunta: de onde vem o dado que a alimenta. É esse levantamento que separa o que pede leitura do que pede sistema próprio, e é por ele que começamos um projeto de sistemas sob medida.

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Quem escreve
Pedro Cunha
CTO da Epicora

Pedro Cunha lidera a engenharia da Epicora, em Chapecó (SC). Escreve aqui sobre as decisões técnicas dos sistemas que a equipe coloca em produção — arquitetura, escopo, estimativa e IA aplicada.

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