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Aplicativo ou sistema web: como decidir o que vai para o celular

Pedro Cunha
Pedro Cunha
CTO da Epicora

Publicado em
atualizado em · 15 min de leitura

Em resumo

A pergunta se responde por perfil de usuário, e não para o sistema inteiro. Aplicativo faz sentido para quem trabalha longe de uma mesa e precisa do que só ele faz bem: funcionar sem sinal, falar com um equipamento por Bluetooth, usar a localização com a tela apagada. Quem administra, quem usa de vez em quando e quem chega por um link fica na web. Nos nossos projetos com app, a web continua fazendo tudo e o aplicativo faz só o trabalho de campo: na Beckers, o técnico preenche o laudo num app Android e o escritório lê tudo no sistema web.

Como decidir se o sistema precisa de aplicativo#

A decisão se toma por perfil de usuário, e não para o sistema inteiro. Um perfil precisa de aplicativo quando usa o sistema longe de uma mesa, muitas vezes por dia, e depende de algo que só o app faz bem, como funcionar sem sinal ou falar com um equipamento por Bluetooth. Os outros perfis ficam na web.

Quase todo sistema tem mais de um tipo de usuário. Tem quem administra, quem opera no dia a dia e, muitas vezes, o cliente final. Quando desenhamos um sistema sob medida, a pergunta "precisa de aplicativo?" é feita para cada um deles, e ela se divide em três: onde a pessoa está quando usa o sistema, com que frequência usa e o que ela precisa do aparelho naquele momento.

Nos nossos projetos que têm aplicativo, só um perfil costuma ir para o app: o de quem trabalha na rua, na bancada ou no campo. O resto continua no sistema web.

PerfilOnde está quando usaFrequênciaO que precisa do aparelhoOnde ficaProjeto
Técnico de assistênciana bancada, com o equipamento abertovárias vezes por diacâmera e formulário guiadoaplicativoBeckers
Vendedor externona porta do cliente, muitas vezes sem sinalo dia inteirofuncionar sem sinal, localização e vozaplicativoReticar
Operador de máquinaem britador e concreteira, com sinal instáveltodo turnofuncionar sem sinal, leitura de QR e BluetoothaplicativoGT
Pacienteem casa, na rotinaum registro curto por dialembrete na hora certaaplicativoCasa Follow Up
Consultora comercialna recepção, entre um atendimento e outrovárias vezes por diasó ler um númerosistema web no celularFitness Academia
Profissional, gestor e administradorna mesa, no computadortodo diatela grande, relatório e configuraçãosistema webCasa Follow Up e Beckers
Quem responde uma pesquisachega por um linkuma veznadasistema web, sem loginSistema Cuidar

A frequência sozinha não decide. A consultora da Fitness Academia abre o sistema várias vezes por dia e continua na web, porque tudo o que ela precisa naquele minuto é ver quanto a unidade já vendeu e quanto falta para a meta.

O que só o aplicativo faz bem#

O aplicativo faz quatro coisas que a web faz mal ou não faz: trabalhar dias sem sinal, conversar com um equipamento por Bluetooth, usar a localização com a tela apagada e avisar no iPhone sem o usuário ter salvo o site na tela de início. Câmera e localização com a página aberta, a web também faz.

Funcionar sem sinal. O vendedor da Reticar faz o check-in na porta do cliente, e é justamente ali que o sinal costuma faltar. No aplicativo, o check-in registra a localização, vira ordem de serviço e sobe para o servidor quando a conexão volta. Fazer isso direito muda o banco de dados e o servidor, e não só a tela, como mostramos em o que muda num sistema quando o app precisa funcionar sem sinal.

Falar com um equipamento. Na GT, um dispositivo instalado em cada máquina mede as horas de operação e entrega esse número por Bluetooth. O aplicativo do operador lê o horímetro quando ele está junto da máquina, mesmo sem sinal, e registra onde o celular estava na hora da leitura. No iPhone, isso só é possível com aplicativo: segundo a tabela de compatibilidade do MDN, o Safari não oferece Bluetooth para páginas web, e o WebKit, o motor do Safari, se opõe à proposta de Bluetooth na web.

Localização e aviso fora da tela. A especificação de geolocalização do W3C só entrega a posição para a página que está visível. E, no iPhone, a notificação de um sistema web só existe desde o iOS 16.4, e apenas quando o usuário adiciona o site à tela de início, como o próprio WebKit anunciou em fevereiro de 2023. Que aviso vai por push e qual vai por e-mail para quem não permitiu notificação se decide no mapa de notificações, antes do código.

RecursoSistema web no AndroidSistema web no iPhoneAplicativo
Câmera e fotosimsimsim
Localização com a página abertasimsimsim
Localização com a tela apagada ou em outro appnãonãosim, com permissão
Trabalhar dias sem sinal e enviar depoiscom limitescom limites: sem envio em segundo plano, e o Safari pode apagar os dados de um site sem usosim
Notificaçãosimsó com o site salvo na tela de iníciosim
Bluetooth e NFC com equipamentosim, no Chromenãosim

Se nenhum perfil do sistema precisa das quatro últimas linhas, o aplicativo não entrega nada que um bom sistema web não entregue.

Quando o sistema web resolve, mesmo com todo mundo no celular#

O sistema web resolve quando o que a pessoa faz no celular é consultar, preencher ou responder. Segundo a TIC Domicílios 2025, 65% dos brasileiros que usam internet acessam só pelo celular. Isso obriga o sistema web a funcionar bem numa tela pequena, e só pede aplicativo quando aparece uma necessidade que a web não atende.

A Fitness Academia é uma rede de cinco academias, e a consultora comercial de cada unidade usa o sistema quase só pelo celular pessoal, na recepção, entre um atendimento e outro. A decisão foi um sistema web desenhado primeiro para o celular e testado antes de tudo na tela de um iPhone SE. Ela entra, vê quanto a unidade já fez no mês e quanto falta para a meta, e volta para o atendimento. Nada nessa tarefa pede aplicativo.

Na Helpe, o público resolve a vida pelo celular e muitas vezes nem usa e-mail. A resposta foi tratar o telefone como identidade, com login por SMS, dentro de um sistema web. No Sistema Cuidar, quem responde a pesquisa chega por um link, responde sem login e vai embora. Ninguém baixa um aplicativo para responder um questionário uma vez.

Por isso, nos nossos escopos, o aplicativo nativo costuma aparecer na lista do que fica fora do projeto, e só sai de lá quando um perfil de usuário pede.

Por que a web continua fazendo tudo quando o aplicativo entra#

A web continua fazendo tudo porque o aplicativo existe para uma tarefa de campo, e a regra do negócio precisa morar num lugar só. Nos nossos projetos com app, a web tem todas as funções e o aplicativo, as do campo. O que apaga, importa ou decide fica na web, onde há tela grande e alguém que responde pelo dado.

Na Beckers, o técnico preenche o laudo no celular, com o ventilador aberto na frente, num aplicativo Android. O escritório lê o movimento da assistência técnica no sistema web. Na DNA Genética, o técnico coleta os dados dos animais na fazenda, sem sinal. Importar o genótipo, cadastrar touro e excluir fazenda, rebanho ou fêmea só se faz na web, e o escopo diz o motivo: garantir a integridade dos dados.

Numa plataforma comercial do agronegócio que estamos construindo, a decisão veio pelo caminho inverso. O escopo dizia, por escrito, que não haveria aplicativo: a tela de campo seria o sistema web aberto no navegador do celular. No primeiro retorno, o cliente colocou como item número um que ter aplicativo era imprescindível. Antes de estimar, fizemos três perguntas.

  1. Aplicativo nativo, ou sistema web instalável na tela de início?
  2. Sem sinal só para consultar, ou também para registrar?
  3. O aplicativo é só do vendedor de campo, ou o painel inteiro vai para o telefone?

A resposta foi um aplicativo nativo só para o vendedor que visita as propriedades, com mapa do território, registro da visita, foto de documento e gravação de áudio sem sinal. A administração, as listagens e a análise continuaram na web. E a web deixou de precisar funcionar no celular: com o campo no aplicativo, os painéis viraram ferramenta de mesa, e o desenho para telas pequenas saiu do escopo. O aplicativo também ficou para a última etapa do cronograma, construído sobre regras que a web já validou.

O que um aplicativo acrescenta além do código#

Um aplicativo acrescenta uma segunda base de código, uma conta em cada loja e uma revisão a cada versão. A Apple cobra US$ 99 por ano e revisa, em média, 90% das submissões em menos de 24 horas. O Google cobra US$ 25 uma única vez. E, enquanto uma versão está em análise, a seguinte espera na fila.

A parte que mais surpreende quem nunca publicou um aplicativo é a fila da revisão. Na GT, nenhuma atualização sobe enquanto a versão enviada não é aprovada, então uma correção urgente depende do andamento da análise. Para aplicativo que só abre com login, a Apple pede uma conta de demonstração com o servidor ligado (diretriz 2.1). No Google Play, uma conta pessoal criada depois de novembro de 2023 precisa de um teste fechado com pelo menos 12 testadores durante 14 dias antes de publicar.

O pagamento também muda de lugar. Para liberar conteúdo ou recurso digital dentro do aplicativo, a Apple exige a compra pela loja (diretriz 3.1.1), com exceções como serviço físico e aplicativo gratuito que acompanha uma ferramenta web paga. No Casa Follow Up, quem contrata é o profissional de saúde, pela web, e o aplicativo do paciente fica fora de qualquer fluxo de pagamento. O que paga e o que não paga comissão à loja está em quando o app paga comissão à Apple e ao Google.

A conta em que o aplicativo é publicado define quem é dono do produto, e o caminho está em de quem deve ser a conta da App Store.

Um PWA resolve?#

PWA (aplicativo web progressivo) é o sistema web que se instala na tela de início e ganha ícone. Usamos esse atalho em sistemas web muito acessados pelo celular, porque a configuração é simples e dá comodidade. Como substituto de aplicativo, não recomendamos: no iPhone, ele esbarra nos mesmos limites da web e fica fora da loja.

No iPhone, a notificação de um PWA só funciona depois que o usuário adiciona o site à tela de início, um passo manual que muita gente não sabe fazer. Desde o iOS 26, qualquer site adicionado à tela de início abre como aplicativo web, o que melhora o atalho, mas não traz Bluetooth, NFC nem envio em segundo plano. E a própria Apple, em 2024, quando anunciou que tiraria esses aplicativos web do iPhone na União Europeia, citou a adoção muito baixa deles entre os motivos. Voltou atrás semanas depois.

Nas vezes em que o PWA apareceu como alternativa nos nossos projetos, inclusive quando o próprio cliente pediu, a decisão final foi sistema web responsivo ou aplicativo nativo. O PWA tenta ocupar os dois lugares e, no iPhone, acaba ficando com os limites da web sem a confiança de estar na loja.

Quando não vale fazer aplicativo#

Não vale fazer aplicativo quando ele seria o mesmo site dentro de uma moldura, quando o usuário entra de vez em quando, quando o motivo é o concorrente ter um e quando a ideia é um aplicativo separado para cada cliente. Nesses quatro casos, o custo da loja e da manutenção chega, e o ganho para o usuário não aparece.

O site dentro de uma moldura. A diretriz 4.2 da App Store pede que o aplicativo vá além de um site reempacotado, e o Google Play também recusa aplicativo sem a utilidade básica que se espera de um app. Colocar o sistema web dentro de um aplicativo só para estar na loja costuma terminar em recusa.

O usuário que entra de vez em quando. Quem usa o sistema uma vez por mês não mantém um aplicativo instalado. Segundo o relatório de desinstalação da AppsFlyer, 46,1% dos aplicativos Android instalados em 2024 foram desinstalados em até 30 dias. Para esse usuário, um link que abre direto no navegador funciona melhor.

O aplicativo porque o concorrente tem. Se o cliente do concorrente usa o app para algo que o seu cliente faz uma vez por ano, copiar a decisão é copiar o custo.

Um aplicativo para cada cliente. Na plataforma de consultorias esportivas que construímos com a Team Garin, cada consultoria parceira tinha o próprio aplicativo, com publicação e revisão próprias, e cada consultoria nova repetia o processo inteiro. O escopo novo tem um aplicativo só, e a marca de cada consultoria aparece dentro dele. A App Store também trata vários aplicativos quase iguais como spam (diretriz 4.3).

Perguntas frequentes#

Quanto custa a mais ter um aplicativo além do sistema web?#

O aplicativo é uma base de código nova, com telas, navegação e testes próprios, mesmo quando usa o mesmo servidor e as mesmas regras do sistema web. Por isso ele entra como um ambiente à parte no orçamento e no cronograma. Além do desenvolvimento, existem as contas das lojas (US$ 99 por ano na Apple e US$ 25 uma única vez no Google) e o tempo de cada revisão. O que mais reduz esse custo é limitar o aplicativo ao perfil que realmente precisa dele.

Dá para começar pela web e fazer o aplicativo depois?#

Dá, e costuma ser o melhor caminho. Nos nossos projetos com aplicativo, ele é a última etapa do cronograma: primeiro a web valida as regras com quem usa, depois o aplicativo é construído em cima de um servidor que já funciona. A condição é que o sistema web tenha sido feito com o servidor separado da tela, para o aplicativo reaproveitar as mesmas regras em vez de duplicá-las.

Preciso de aplicativo para mandar notificação?#

No Android, não: o sistema web consegue mandar notificação pelo navegador. No iPhone, a notificação de um sistema web só funciona desde o iOS 16.4 e apenas quando o usuário adiciona o site à tela de início. Se o aviso é essencial para o produto e boa parte do público usa iPhone, o aplicativo é o caminho mais seguro. Se é um lembrete que pode chegar por e-mail ou mensagem, a web resolve.

O aplicativo precisa estar na App Store e na Google Play?#

Para o público em geral, sim, porque é na loja que as pessoas procuram um aplicativo e confiam nele. Mesmo o aplicativo interno de uma empresa costuma ser publicado na loja, com acesso restrito: na Beckers, o aplicativo está na Google Play como aplicativo corporativo, sem cadastro público, e só entra quem recebe acesso da empresa. Estar na loja traz junto a revisão de cada versão e as regras de pagamento da loja.

Cada tipo de usuário precisa do seu próprio aplicativo?#

Na maioria dos sistemas, não, porque normalmente só um perfil precisa de aplicativo e os outros ficam na web. No Casa Follow Up, o paciente usa o aplicativo, e o profissional e a administração usam a plataforma web. Quando dois perfis de fora da empresa precisam de aplicativo, como o cliente e o prestador de um serviço, vale separar em dois, porque cada um tem a sua jornada e a sua ficha na loja.

Fontes#

Próximo passo#

Se o seu sistema tem gente na rua e gente no escritório, é o tipo de projeto que fazemos em sistemas sob medida: o aplicativo para quem está em campo, como o vendedor da Reticar, e o sistema web para quem administra e decide.

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Pedro Cunha
Quem escreve
Pedro Cunha
CTO da Epicora

Pedro Cunha lidera a engenharia da Epicora, em Chapecó (SC). Escreve aqui sobre as decisões técnicas dos sistemas que a equipe coloca em produção — arquitetura, escopo, estimativa e IA aplicada.

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